Lisboa - São três parcelas que totalizam mais de 53 milhões de dólares (43,2 milhões de euros), cujo rasto permanece um mistério. Na queixa apresentada pelo Estado angolano ao Ministério Público português, há documentos a autorizar transferências milionária para determinadas contas, mas a investigação concluiu que o dinheiro nunca chegou ao destino.

Fonte: Publico

 

Exemplo disso são os 33.875.413 dólares (27.643.200 euros) que, com base num ofício do então ministro das Finanças angolano, José Morais Júnior, datado de Junho de 2008, terão sido transferidos para a conta de uma empresa familiar portuguesa dedicada à extracção de inertes. Angola diz que a empresa “recebeu na conta bancária” aquela importância, mas as informações recolhidas durante a investigação concluem o contrário.


O BPI, o banco onde estava a conta da empresa, não detectou a transferência. Esclareceu ainda que “a referida conta nunca registou movimento superior a 10.000 euros” e que na altura em que foi feito o pedido de informações o saldo era de apenas 494 euros. Face à discrepância, o Ministério Público pediu ao Estado angolano, assistente no processo, que confirmasse junto do Banco Nacional de Angola se a transferência tinha sido realizada, pedindo para serem confirmados os dados da conta receptora. “Porém, nada foi junto, vindo o assistente a salientar que o citado pedido deveria ser feito por carta rogatória que especificamente fundamentasse os motivos do respectivo pedido”, lê-se no despacho de arquivamento. A 1 de Outubro de 2015, o Ministério Público remete a tal carta rogatória, mas mesmo assim nada foi junto aos autos.

 

Ainda mais curiosa é a história de outro empresário português, da área das obras públicas, para quem teriam sido transferidos quase nove milhões de dólares, para uma conta sua sediada em Espanha, onde então vivia. A transferência fora justificada pelo Ministério das Finanças angolano como “projecto de meios aéreos para a Força Aérea”. No interrogatório, este empresário reconheceu ter sido contactado em 2007, através de um conhecido, por um funcionário público angolano que queria importar para Angola diversos bens, incluindo sementes, carnes e máquinas agrícolas. O funcionário foi a Chaves em finais de 2007, tendo então visitado várias empresas fornecedoras dos bens.

 

O empresário recordou-se de, em Outubro de 2007, ter recebido um telefonema do tal funcionário a dizer-lhe para irem buscar à estação de comboios de Braga um indivíduo que viria fiscalizar o negócio. O português conta que este se apresentou como funcionário dos serviços secretos angolanos, a trabalhar na Presidência da República de Angola. Exibiu-lhe o cartão de identificação que atestava aquela qualidade e ainda três passaportes, um deles diplomático, com a chancela da presidência.

 

O espião trazia um comprovativo da transferência dos quase nove milhões para a conta do português, tendo os três comprovado isso mesmo numa deslocação ao banco em Espanha. Alegadamente, segundo informação do gerente, o dinheiro estava na conta, mas cativo. O bancário adiantou mais tarde que terá sido posteriormente devolvido à conta do BES, em Londres. Contudo, os dados bancários recolhidos pelos investigadores nunca detectaram o depósito milionário naquela conta. Mas a investigação conseguiu confirmar que dois angolanos com a descrição feita pelo português tinham, de facto, pernoitado na Hospedaria Florinda, em Chaves, em 2007.

 

Menos dados há sobre 11 milhões que o Tesouro Angolano alegadamente transferiu para outra empresa entre Março e Abril de 2008. O próprio Estado angolano admite não ter encontrado os documentos que terão servido de suporte ao movimento, terão sido “destruídos”. Mas o dinheiro também não foi detectado nas contas da empresa para onde teria sido encaminhado.



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