Luanda - Em reportagem do jornalista Liberato Furtado de dia 8 de Agosto passado, o programa Kiandando, da Rádio Luanda, noticiou que Pula-Pula estará preso, em conjunto com mais alguns elementos do SIC (Serviço de Investigação Criminal) do Rangel, dos quais se destaca o inspector-chefe Pacavira.

*Moiani Matondo
Fonte: Maka Angola

Semelhante notícia poderia levar-nos a pensar que finalmente tinham chegado resultados das denúncias sobre as execuções sumárias levadas a cabo por esquadrões da morte do SIC, reunidas em “O Campo da Morte: Relatório sobre Execuções Sumárias em Luanda (2016-2017)”, escrito por Rafael Marques. Na verdade, a PGR (Procuradoria-Geral da República) formou uma comissão de inquérito para averiguar os factos e retirar conclusões. Pula-Pula figurava com triste destaque no referido relatório como um dos mais temíveis executores do SIC.

 

Recordemos o testemunho pungente de uma mãe, Esperança Mafuta “Makiesse”, que viu o filho ser assassinado por Pula-Pula: “Mal atravessou a porta, a mãe ouviu o filho a gritar ‘Makiesse, sai, vem ver esse senhor que está a matar-me! Fui ver o que se passava e vi um dos homens a disparar três tiros contra o meu filho. Um tiro na mão esquerda, outro na mão direita e o terceiro na cabeça’. Makiesse identificou o assassino como sendo um dos mais famosos assassinos, ‘conhecido como Pula-Pula’, que opera a partir da Esquadra do IFA [Comando de Divisão do Cazenga] e tem jurisdição sobre a Esquadra do Cauelele.”

 

Afinal, continuando a ouvir a reportagem da Rádio Luanda (que faz parte da estatal Rádio Nacional de Angola) percebe-se que as razões que terão levado Pula-Pula à prisão não têm qualquer ligação com as suas actividades enquanto exterminador policial. Na realidade, nunca mais se ouviu falar da Comissão de Inquérito da PGR, nem de quaisquer medidas tomadas para evitar esses assassinatos.

 

Numa volta irónica da vida, Pula-Pula estará preso (a Polícia Nacional não confirma nem desmente) por ser bandido, por andar a assaltar casas. Veja-se bem, Pula-Pula andava a assassinar supostos bandidos que faziam assaltos, e, no entanto, ele também assalta casas!

 

No assalto concreto de que Pul-Pula é acusado, terão sido furtados 30 milhões de kwanzas da casa de um empresário estrangeiro. Aparentemente, um colaborador desse empresário informou o bando de investigadores criminais da existência do dinheiro, e os operacionais do SIC apressaram-se a assaltar a casa para ficarem com o dinheiro. Parece, pois, que quando matava assaltantes Pula-Pula não andava a fazer justiça pelas suas próprias mãos, mas apenas a eliminar a concorrência…

 

A confirmarem-se, estes factos levantam duas questões importantes. Em primeiro lugar, há que perguntar a quem aplaudia as acções de matança de Pula-Pula, alegando que estas restabeleciam a ordem pública, se agora querem que Pula-Pula venha matar Pula-Pula? Ou se finalmente perceberam que um dos grandes problemas destes assassinatos extrajudiciais é que nunca se sabe onde acabam e quais as motivações reais para acontecerem. Como se vê, os agentes do SIC podem ser bandidos, tornando as fronteiras muito esbatidas. Porque matava Pula-Pula? Para fazer uma justiça barbárica ou, simplesmente, para ficar com mais casas para assaltar?

 

Uma segunda questão prende-se com a atitude do SIC. Temos assistido às emissões televisivas em que o SIC exibe os meliantes que apanhou sem qualquer pejo ou respeito pelo segredo de justiça. Faz-se um “show” com as capturas. Ver aqui, por exemplo.

 

Ora, neste caso, o director do Gabinete de Comunicação Institucional do Ministério do Interior em Luanda, intendente Mateus Rodrigues, remete-se ao silêncio, apenas confirmando que existiu um assalto e que foram efectuadas detenções, mas não adiantando mais nada, sob pretexto do segredo de justiça. Não há reportagens televisivas, nem paradas de bandidos.

 

Tal procedimento, além de ser contraditório com outros procedimentos do SIC, faz logo disparar todo o género de teorias, nomeadamente que o SIC se prepara para abafar o caso em troca da devolução do dinheiro roubado. Isto é, os seus agentes seriam libertados desde que devolvessem o dinheiro que resultou do assalto. Não vale a pena dizer que, juridicamente, esta situação não tem cabimento. A devolução do dinheiro não faz cair os crimes, apenas pode minorar as penas. O que importa é reflectir sobre a falta de transparência deste caso, por comparação com outros casos, a qual levanta as maiores suspeitas quanto ao comportamento do SIC.

 

E quanto a fazer-se justiça pelas próprias mãos, fica demonstrado o que sempre defendemos: não resulta. Apenas faz substituir uns bandidos por outros piores e mais perigosos. A pergunta mantém-se: quem aplaudiu Pula-Pula quer agora que Pula-Pula execute Pula-Pula?

 



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