Lisboa  - O Presidente do Sudão, Omar al-Bashir, que estava no poder há mais de 30 anos, foi afastado pelos militares. Num comunicado transmitido na televisão, o ministro da Defesa e vice-Presidente de Bashir, anunciou a detenção do ex-chefe de Estado "num lugar seguro" e a formação de um Governo militar de transição, que deverá manter-se por dois anos.

Fonte: Lusa

A Constituição foi dissolvida, assim como o Conselho de Ministros e a Assembleia Nacional. Nos próximos três meses irá vigorar o estado de emergência, incluindo recolher obrigatório a partir das 22h durante o próxmio mês, afirmou o ministro da Defesa.

 

O espaço aéreo será encerrado por 24 horas, assim como as fronteiras, estas até nova ordem.

 

"Durante muito tempo, examinando o que tem ocorrido no Estado e a corrupção que existe... os pobres cada vez mais pobres e os ricos ainda ricos e não há oportunidades iguais para as mesmas pessoas", começou por dizer Ibn Auf, saudando a "paciência" demonstrada pelos sudaneses.

 

Awad Mohamed Ahmed Ibn Auf anunciou depois a remoção do "regime" e o afastamento de Bashir al-Assad. De acordo com rumores, que correm há várias horas na capital sudanesa, Cartun, será ele mesmo quem deverá assumir o poder.

 

Planos que irão esbarrar na contestação de milhares de sudaneses que se têm manifestado quase continuamente nos últimos meses e que esta quinta-feira saíram à rua em massa para festejar a queda de al-Bashir. O que exigem é a democratização do país e não um governo militar.

 

Ibn Auf procurou garantir a paz no país, garantindo o cumprimento de todos os direitos humanos e pedindo paciência aos sudaneses para tolerarem as medidas que vão ser implementadas.

 

"O Comité Supremo decidiu implementar o que não estava na mente de outras pessoas e por um período de transição de dois anos as forças armadas irão assumir o poder com a representação do povo para abrir caminho ao povo", garantiu Ibn Auf.
Plano para reprimir

Na sua comunicação, Ibn Auf revelou que al-Bashir tinha "planos que iriam levar à perda de muitas vidas".

 

"Vocês têm acompanhado o que sucedeu desde 6 de abril. Nós, enquanto Comité Supremo de Segurança, aconselhámos e fizemos várias propostas. Não nos ouviram e tinham um plano que iria custar muitas vidas", afirmou o ainda ministro da Defesa.

 

Terminaram deste modo três décadas de poder autocrático de Omar al-Bashir, de 75 anos, um homem acusado pela justiça internacional por crimes de guerra na zona do Darfur.

 

As forças militares que apoiaram o golpe controlam o Ministério da Defesa e as principais estradas e pontes da capital do país.

 

O Serviço de Segurança e Informações anunciou já a libertação dos prisioneiros políticos detidos em todo o país, afirma a agência sudanesa de notícias. Algumas sedes deste serviço foram assaltadas por populares em Kasala e Porto Sudão.
Cepticismo

 

O discurso foi recebido com cepticismo. Analistas sudaneses referem que apenas foi afastada cabeça do regime militar e que este mantém no fundo o controlo do poder.

 

"Resumo da declaração do exército: dois anos de período de transição, dissolução da Constituição, detenção de Bashir, três meses de estado de emergência, recolher orbigatório às 22h por um mês, libertação dos prisioneiros políticos", refere outro texto. "Resumo alargado: Bashir/a sua clique foram removidos, mas o fuindo militar do regime mantém-se", conclui.
Rejeição

De acordo com a Agência Reuters, a Associação Sudanesa de Profissionais, SPA, membro principal da Aliança que tem estado à frente da contestação a al-Bashir, rejeitou a declaração do ministro da Defesa e apelou às pessoas para permanecerem no protesto sentado nas ruas fora do Ministério da Defesa, que dura desde sábado em Cartum.

Omar Saleh Sennar, um dos líderes da SPA, já tinha dito que só será aceite um governo civil.

 

"Iremos aceitar apenas um Governo de transição civil, composto pelas forças da Declaração da Liberdade e Mudança", disse de manhã, em referência a um documento que explicita as exigências da Aliança.

 

A SPA apelou ainda os manifestantes que invadiram as ruas de Cartum a não destruirem bens públicos. "A nossa revolução é pacífica, pacífica, pacífica!", lembrou.

 

O apelo poderá não surtir efeito. Os sudaneses não pretendem a continuação de um regime militar com outra maquilhagem.


Liberdade, democracia, igualdade

Mohamed Adam, de 44 anos, foi decisivo. "Não aceitaremos um ajudante de Bashir como parte da mudança. Essas pessoas mataram manifestantes" afirmou à Reuters.

 

Também Kamal Omar, um médico de 38 anos, disse que um Governo militar não será aceite. "Iremos continuar o nosso protesto até prevalecermos", garantiu.

 

Hiba Ali, outra manifestante, explicou à BBC o que está em causa.

 

"Aquilo que as pessoas estão a exigir é liberdade, justiça e igualdade. Não é só sobre o afastamento de Bashir. É também sobre a queda de um regime como um todo e tudo o que implicou e 30 anos de opressão. Por isso, o que queremos é uma transição para a democracia. Queremos um Governo civil e a entrega do poder e da autoridade ao povo", afirmou.



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