Luanda - Ao contrário do que aparenta, a crise originada pelos restos mortais de Jonas Savimbi é mais profunda e não começou agora.

Fonte: Novo Jornal

No processo de transição de lideranças, que internamente desencadeou, o MPLA deixou-se levar pelo entusiasmo e não acautelou devidamente as consequências políticas de algumas decisões. O render da guarda pode ter trazido também alguma imaturidade e despreparação para lidar com dossiers mais sensíveis homem de família”.

 

Verdade seja dita, a direcção da UNITA fez tudo isso às claras, perante um estranho silêncio da liderança política do governo.

 

A reabilitação de Jonas Savimbi, sob o olhar indecifrável dos novos dirigentes do MPLA, talvez seja hoje um dos golpes mais duros para as famílias que foram vítimas das atrocidades de Jonas Savimbi. Enquanto JMS era elevado pela UNITA à categoria de herói nacional, idolatrado na imprensa e nas redes sociais, as vitimas não tiveram uma única palavra de conforto de ninguém e nem mesmo quando fizeram apelos para que o MPLA saísse em seu socorro, foram ouvidos. Foram deixadas à sua sorte, passando de vítimas a carrascos e de vencedores a vencidos.


Ao contrário do que nos queixávamos aqui mesmo nesta rubrica há três anos, a reconciliação dos vencedores, a ingenuidade e falta de profissionalismo do MPLA transformou a actual reconciliação no protagonismo dos vencidos. O conteúdo da reconciliação nacional ganhou um sentido único e os “sapos a engolir” estão apenas do lado de quem venceu a guerra. O governo decidiu fazer concessões de tal ordem que agora, existem por todo o país cartazes a apelidar as forças armadas de assassinas e considerar o MPLA de algoz de Savimbi.


Se há três anos dizíamos que a reconciliação se tinha tornado num processo absolutamente “amarrado” a uma visão da sociedade entre vencidos e vencedores, hoje a filosofia é a mesma, exceptuando o facto de se ter invertido a equação. Antes, quer no discurso político como na projecção da imagem do outro, havia uma atitude triunfalista dos vencedores sobre os vencidos. Hoje, estranhamente, o discurso político é favorável aos chamados “vencidos” que fizeram associar o conceito de reconciliação nacional a um conjunto de facilidades e tratamentos especiais que lhes politicamente.

 

Foi essa ingenuidade e precipitação do MPLA em resolver tudo rapidamente, que permitiu que o dossier Jonas Savimbi acabasse por se transformar num troféu de guerra para a UNITA. A politização da exumação de Jonas Savimbi começou quando, na maior ingenuidade do mundo, os dirigentes do MPLA acreditaram que a UNITA não iria tirar ganhos políticos e nem iria aproveitar a dimensão histórica do seu fundador para se revigorar junto das suas bases tradicionais. Como se diz vulgarmente, o MPLA e o seu governo “foram comidos em bifes de cebolada com garfo e faca”, pela UNITA.


Essa distracção negligente só foi possível porque internamente os últimos meses têm sido marcados por processos de afirmação de novos actores, sem a astúcia e a matreirice política dos mais velhos. A vontade de fazer diferente do que a direcção anterior em matéria de reconciliação nacional, levou a que se cometesse a imprudência de “reabilitar” Jonas Savimbi. A excessiva atenção e mediatização dos casos de corrupção interna do próprio MPLA foi aos poucos projectando uma desresponsabilização da guerra.

Quanto mais se denunciavam casos de corrupção como sendo extremamente lesivos, mais a UNITA fazia circular velhos discursos de Jonas Savimbi nas redes sociais e nos seus meios de comunicação como alguém que havia feito profecias sobre um país roubado e espoliado pelos homens do MPLA. Essa lenta reabilitação, nos debates radiofónicos, redes sociais e em publicações bem conhecidas, foi acontecendo nas barbas do MPLA sem que este, envolvido nas suas querelas internas, tivesse discernimento para perceber o alcance dessa estratégia.


Jovens, alguns manipulados pela UNITA mas outros absolutamente conscientes e furiosos com o nível de má gestão, reconhecido publicamente pelo próprio MPLA, foram transformando Jonas Savimbi de assassino, causador da maior desgraça nacional em homem visionário, fonte de inspiração e patriota.


Tranquilamente, e sem qualquer reacção do MPLA, a UNITA foi testando um conjunto de acções e declarações. Organizou conferências provinciais em homenagem a JMS, declarou a data da sua morte “Dia do Patriota”, declarou o ano de 2019 em Ano da Consagração para — segundo afirmações públicas daquele partido — “mostrar Jonas Savimbi como “estratega, político, diplomata, humanista, homem de letras e de cultura, patriota, promotor da valorização da mulher e da juventude e ainda como pai e devem ser dadas. E assim, como patinhos, o governo caiu na conversa de um tratamento especial a Jonas Savimbi. Ao invés de ter criado uma comissão para tratar dos casos das famílias de antigos dirigentes caídos em combate, seja da UNITA, do MPLA e outros, o MPLA decidiu tratar JMS com a deferência e o tratamento especial que a UNITA queria. Nessa ingenuidade, o funeral que deveria ser de carácter familiar (abrangendo todas as famílias e só famílias em igualdade de circunstâncias) e de reconciliação (abrangendo as vitimas de todos os lados em igualdade de tratamento) transformou-se num gesto politico. Primeiro com a inclusão da UNITA e depois com o tratamento especial a JMS.


Se no passado reclamávamos do chamado “mau ganhar” dos vencedores, agora, há com a permissividade do MPLA, a revanche do mau perder, através da qual a UNITA procurou usar as ossadas como um troféu de guerra e como uma alavanca para a vitória política.

 

Só tarde e a más horas, o governo percebeu o nível de orfandade que o seu gesto provocou entre as famílias vítimas de JMS e da dimensão político-partidária dada pela UNITA às exéquias. A reconciliação, meus senhores, deve envolver todos e sem tratamentos especiais.”

 



DEBATE NAS REDES SOCIAIS:




DEBATE NO ANÓNIMATO: