Lisboa - Santomense de origem, Tomás Medeiros já foi angolano por opção e viveu os seus últimos anos como cidadão português residente em Portugal. Privou com alguns grandes nomes da luta de libertação nas colónias portuguesas - Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade - e foi, ele próprio, uma personalidade marcante nessa luta. Morreu ontem em Lisboa, de doença prolongada.

Fonte: Lusa

A politização de Tomás Medeiros teve início na Casa dos Estudantes do Império (CEI). Veio para Lisboa em criança e ainda não tinha terminado o liceu quando “as pessoas que deram a volta à sua vida” lhe recomendaram frequentar a CEI: Mário de Andrade e Amílcar Cabral que, sendo uns anos mais velhos, já tinham terminado os estudos e deixado a CEI. Mas a diferença de idade não era obstáculo ao surgimento de uma forte amizade, que iria manter-se por largos anos.

 

Graças a Mário de Andrade, Tomás Medeiros tomou conhecimento da existência de uma literatura inimaginada, “que não nos ensinavam nas escolas”, criada desde a América Latina até França, passando pelos Estados Unidos. Foram todos estes autores e também os autores francófonos da negritude que levaram jovens intelectuais das colónias portuguesas a “reafricanizarem-se" e a assumirem-se como africanos.

 

Segundo os próprios continuaram a recordar nas décadas seguintes, “o mito do lusotropicalismo era a única teoria que nos impingiam. Nós não tínhamos outra alternativa, pensávamos que éramos portugueses, que pertencíamos a uma mesma família”.

 

Em 1951, criou-se o Centro de Estudos Africanos (CEA), dirigido por Mário de Andrade, Amílcar Cabral, Francisco Tenreiro, Marcelino dos Santos e António Domingues. Começou a publicar um caderno de poesia africana de expressão portuguesa. Os seus activistas participaram na publicação de um número da Présence africaine com um artigo intitulado “Les étudiants Noirs parlent”.

 

O CEA publicou pela primeira vez em Portugal Luandino Vieira, António Jacinto, António Cardoso, Costa Andrade, Manuel Lima, Arnaldo Santos, Craveirinha, Noémia de Sousa. Sob a sua égide criou-se também um conjunto musical, o N’gola Kizomba, que tocou no cinema Império, no Pavilhão dos Desportos em Lisboa, no Teatro Avenida em Coimbra, etambém no Porto. A actividade cultural do Centro era intensa.

 

Mas nos anos seguintes três acontecimentos vieram alterar completamente a situação: o massacre de Pidjiguiti, na Guiné; o massacre de Batepá, em São Tomé; e o 4 de fevereiro em Angola.

 

Os mais velhos, receando que a PIDE associasse esses acontecimentos ao Centro de Estudos Africanos, fugiram então de Portugal: Mário de Andrade para Paris, Lúcio Lara para a Alemanha, Virato da Cruz para Alemanha, Alda de Sousa para São Tomé. Agostinho Neto permaneceu em Portugal, mas na prisão. O Centro de Estudos Africanos estava condenado.

 

"A partir dessa altura, recordava Tomás Medeiras, a luta já não é cultural, tem de ser militar. E os angolanos que estavam no estrangeiro (...) vão para a Guiné Conakry. E, como tinham necessidade de quadros para a organização da luta, é ali que começa a verdadeira organização destes movimentos políticos; eles fazem apelo aos estudantes que estavam na Casa dos Estudantes do Império. E somos nós os cem estudantes que fogem".

 

Depois da "fuga dos cem", Tomás Medeiros partiu para Rabat ainda em 1961, e depois para a União Soviética, onde, até 1964, completou o curso de medicina e trabalhou como locutor e repórter de rádio. Concluído o curso, partiu para Brazzaville, onde integrou as forças do MPLA em 1964-1965.

 

Dessa fase, recordava que, "como a sede era em Brazzaville, a 350 km da fronteira, o MPLA aluga uma antiga quinta a uns cinco quilómetros de Dolisie, onde forma a retaguarda da guerrilha, e a guerrilha está a uns dez quilómetros, já no território de Cabinda". Era aí a sua área de operações, onde se manteve formalmenteo com o grau de comandante, na realidade com a função de médico e formador político, sem participar nos combates.

 

Em 1965, foi incumbido da formação dos primeiros núcleos do independentismo sãotomense e partiu para Acra, com essa missão. Em Outubro de 1965 participou ainda na 2ª Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP), em Dar-es-Salam. Daí seguiu para Accra, onde permaneceu durante dois anos, como conselheiro político do presidente do Ghana, Kwame Nkrumah, até ao golpe de Estado que pôs fim à presidência deste, em 1966, e deu aos movimentos de libertação das colónias portuguesas 48 horas para abandonarem a capital ganense.

 

Salvo pela embaixada argelina,Tomás Medeiros partiu para a Argélia, onde ficaria a viver de 1966 até 1975. Trabalhou como médico, retomou o contacto com Mário de Andrade e com Amílcar Cabral, sempre que este visitava o país; e estabeleceu contacto com exilados portugueses. Manteve-se relativamente arredado da actividade política, colaborando especialmente com o PAIGC.

 

Pelo meio, em 1972, foi ainda a Santa Isabel, na Guiné Equatorial, para participar na fundação do Movimento de Libertação de São Tomé e Príncipe (MLSTP). O novo partido manteve-se contudo com uma actividade vegetativa, que Tomás Medeiros considerou decepcionante.

 

Viveu o 25 de abril na Argélia e, em março do ano seguinte, viajou para o seu país natal, e fez escala em Angola. Nessa viagem via os pais pelas primeira vez em 17 anos de ausência. Acabou por vir trabalhar para Portugal, de facto a dirigir o Centro de Diagnóstico Pneumológico do Hospital de Vila Franca de Xira, encarregado sobretudo da luta antituberculose.

 

Em julho de 1976, tentou ainda participar na construção dos novos países africanos, embarcando para Angola com a companheira, Rose-Marie, e duas filhas pequenas. Foi integrado como médico num sanatório, mas não foi integrado no processo político angolano. Recordando esses tempos, dizia recentemente que "não havia socialismo nenhum" e que o país se afundava na corrupção. Em outubro de 1977 regressou a Portugal.

 

Falecido no domingo, 8 de setembro, Tomás Medeiros será homenageado no Cemitério de Alcabideche, quarta feira dia 11 às 14h, antes da cremação.

 



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