Lisboa - Dois anos depois de ter deixado de oferecer o petróleo como “seguro” para o investimento estrangeiro em Angola, João Lourenço divide-se entre Washington e Pequim para, a todo o custo, tentar aliviar a pressão.

*Gustavo Costa
Fonte: Expresso

Sem acesso às divisas e com as relações entre os bancos correspondentes estrangeiros e a banca local congeladas, Angola continua a viver momentos de grande asfixia financeira. Atentos à tensão social que, nos últimos tempos, tem vindo a subir de tom devido ao agravamento dos preços dos produtos importados, os bispos da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), reunidos na quarta-feira de urgência, dizem que “as expectativas tendem agora a esvair-se”.


A apreensão é tanto maior depois de alguns números avançados esta semana por João Lourenço, na mensagem à nação, estarem a ser contestados pela opinião pública.

 

“Quem forneceu dados falsos ao Presidente deve ser imediatamente exonerado!”, disse ao Expresso o escritor e ex-deputado do MPLA Jacques dos Santos. E o economista Yuri Quixina não poderia ter sido mais assertivo: “Se a equipa económica foi constituída para reformar a economia e não o consegue, então é a economia que deve reformar a equipa económica”.


João Lourenço enfrenta sérias dificuldades para suster os efeitos da crise. Apesar de ter garantido a recuperação de 313 milhões de dólares, 9 milhões de euros e 52 imóveis, uma fonte do Ministério da Economia confidenciou ao Expresso que , “ para a dimensão da fuga de capitais registada no país, estes números pouco ou nada representam”. E, quanto a investimentos privados, estimados em 1.650 milhões de dólares, a mesma fonte advertiu que “ tudo isso, por enquanto não passa de meras intenções”.

No passado vieram da China enormes quantidades de dinheiro, mas agora os fundos chegam a um ritmo bastante menor. Aliás, Pequim e Moscovo, antigos aliados de José Eduardo dos Santos, não veem com bons olhos a proximidade entre Luanda e Washington. Os chineses refrearam mesmo os seus investimentos em Angola e a partir do próximo ano, segundo fonte do Ministério das Finanças, vão começar a cobrar o desembolso de novas prestações de uma dívida que as ascende a 20 mil milhões de dólares.


E os EUA, para injectarem capitais no mercado angolano, continuam a impor condições.


“ O Presidente parece dividido entre ceder às pressões americanas sem garantias de receber nada em troca e aceitar as facilidades de investimento chinês sem impor as exigências americanas”, advertiu o sociólogo Baptista Kameia.


Pressionado por Washington, João Lourenço decidiu fazer uma guerra aberta contra a corrupção e o branqueamento de capitais. “Vai liberalizar o processo de entrada e saída de divisas através da flexibilidade da Conta Capital e aprovar uma lei que afasta os PEP (Pessoas Politicamente Expostas) da estrutura accionista dos bancos comerciais”, revelou ao Expresso fonte do Banco Nacional de Angola ( BNA). Investida de maior autonomia e de novos poderes, à Procuradoria-Geral , ao desencadear vários processos -crime, está, em simultâneo, a colocar no banco dos réus altas figuras do regime, acusadas de estarem envolvidas em alegados casos de peculato e de branqueamento de capitais.


O dinheiro de Pequim e a pressão de Washington estão a dividir as opções financeiras do poder em Angola . Moscovo assiste com preocupação ao ascendente político e financeiro dos EUA sobre a governação de João Lourenço.


Empenhado em devolver confiança ao mercado, João Lourenço afastou ainda do projecto de construção da futura refinaria de Cabinda o ex-presidente da Comissão Executiva de Luanda, José Tavares.


Para alavancar o empreendimento, este intermediário aliara-se ao mercador de armas russo-israelita Arcadi Gaidamaki, mas, segundo fonte da Sonangol, rapidamente se chegou à conclusão de que “se estava perante uma verdadeira fraude que ameaçava pôr em causa uma das promessas eleitorais do Presidente”.


Decidido a manter o pé no acelerador na luta contra a corrupção, João Lourenço deu igualmente luz verde à instauração de um inquérito à antiga liderança do Ministério do Emprego e da Segurança Social (liderada por Pitra Neto), estando as suas contas a serem passadas “a pente fino” por técnicos da Inspecção-Geral do Estado.


O cerco estende-se também a antigos gestores da Sonair (uma subsidiária da Sonangol), que foram subscritores de contratos lesivos dos interesses públicos com a participação de funcionários da TAP.


Depois da abertura de um processo em Portugal, os gestores da Sonair em causa, inquiridos também em Angola, “estão agora obrigados a devolver somas em dinheiro estimadas em mais de 40 milhões de dólares de bens imóveis apreendidos naquele país”, revelou ao Expresso fonte da PGR.



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