Luanda - Lembram que uns meses atrás a UNITA prometeu realizar um grande projeto de reflexão sobre a educação em Angola? Já em 2013 o mesmo partido teve uma conferencia para “promove(r) o debate sobre educação”[1] em Angola”, chegando a conclusão de que “educação é um instrumento indispensável para o desenvolvimento do país”.

Fonte: Roboredo

Porem se a “educação é realmente indispensável para o desenvolvimento”, o que a UNITA fez pela educação nacional desde 2013?

A resposta oficial do partido poderia ser que não estando no Governo e tendo apenas uma minoria de deputados, nada pode fazer pela educação, e a própria conferencia da 2013 tem esta lógica embutida no tema sobre “a importância das autarquias no quadro da educação”, sou seja com autarcas do Galo Negro finalmente poderá se mudar algo. Isto deveria nos levar a conclusão que os membros da UNITA acreditam que:

não existem meios de ação fora da política.


este problema, apesar de grave, pode esperar que eles tenham o controle do estado, de forma total com uma vitoria presidencial ou parcial com as eleições autárquicas, para ser resolvido.


Ao invés de me perder em argumentação teórica acerca do papel Estado na sociedade, vamos usar um exemplo Sul Africano para mostrar que existe uma segunda via possível, mas que esta fora do horizonte imaginativo da maioria das pessoas em Angola.

O governo, sob comando exclusivo do ANC, encerou a única Universidade publica que lecionava em Afrikaans [2], a Língua Nacional do povo Afrikaneer, alegando que a existência de uma universidade para servir esta minoria, apenas 4% da população total e metade da população branca daquele pais, seria um ato de racismo contra a maioria negra (Nota: não sei como chegaram a esta conclusão, e estou pronto a pagar quem conseguir explicar o seu bom senso).


Apesar de ter um partido nacionalista Afrikaneer no parlamento, Freedom Front Plus (FF+), que tem menos chances de vencer as eleições gerais que a FNLA, e que dificilmente conseguiria forçar o ANC a recuar em sua decisão, a sociedade civil Afrikaneer não esperou que se resolvesse o caso politicamente ou judicialmente, e avançou com um projeto de construção de uma universidade privada[3] ,em que as aulas serão lecionadas em Afrikaans, orçada em 20 milhões de dólares, por iniciativa do sindicado Solidarity e da organização cívica Afriforum, ambas voltadas para a defesa dos direitos dos Afrikaaners, e que faz parte de um projeto educacional e cultural[4] que custara mais de 310 milhões de dólares, e será financiado por donativos. Ou seja, acreditam que a educação é indispensável para o desenvolvimento e sobrevivência de seu povo ao ponto de não se dar o luxo de esperar que o governo do ANC, ou que um hipotético governo do FF+, resolvesse o problema.

Aonde que a UNITA arranjaria os fundos para projetos similares? Usando os mesmos meios que serviram para financiar a ultima convenção da UNITA, que custou 1.8 milhões de dólares, ou o enterro de Savimbi, seja por meio do financiamento que recebe do Estado ou pelo do dinheiro que sobrou do trafico de diamante do tempo da guerra, o semanário Angolense alega que tenha restado 200 milhões de dólares[6], e poderia receber donativos de membros e simpatizantes com poucas dificuldades, sendo o segunda maior partido no pais.

O mais chocante nas declaração do representante residente do Banco Mundial em Angola, Olivier Lambert, feitas em um encontro do Standard Bank, que “um aluno em Angola estuda 8 mas só aprende o equivalente a 3 anos” [5] não foi para mim que a educação Angolana é ineficiente, mas que os partidos da oposição que se propõe a resolver os problemas de Angola não levem o assunto a serio ao ponto de dedicar parte de seus recursos a estudar estes e produzir dados como estes apesar de estar a organizar mesas redondas sobre o tema desde 2013. O economista chefe do Standard Bank para Angola e Moçambique, Fausio Mussa, entende que a melhoria da qualidade do ensino não depende só de investimentos, mas também na mudança cultural, dizendo, com razão, que “É preciso cavar mais fundo”, pois senão corremos o risco de ficarmos presos em discursos ocos, dos quais os manifestos eleitorais são a suprema expressão[7], que se resumem uma solução única para qualquer problema: a ascensão ao poder da pessoa que faz o discurso.

Parece que na imaginação das pessoas que compõem UNITA a única solução aos problemas da educação seja a sua ascensão ao Poder, quando poderiam fazer muito mais, e partilham esta mesma falta de imaginação com um MPLA que acredita que precisa de apenas mais alguns séculos para acertar.

Não se trata aqui de acusar a UNITA de inação, ou o MPLA de ação incompetente, mais de questionar a tendência geral da Sociedade Angolana de pensar que a política, resumida a falar dos problemas e desejar as receitas petrolíferas, seria a única forma de resolver problemas. A ação das organizações da sociedade civil, sejam estas ONG ou o Movimento Revolucionário, muitas vezes se resumem ao mesmo princípio: o governo, o único agente social, não esta a funcionar por causa da corrupção ou falta representação democrática.

Se colocarmos em ilhas separadas, respetivamente, 100 americanos, Brasileiros, Afrikaneers, e angolanos sem supervisão governamental, qual seria o resultado depois de 5 anos?

Imagino que uma ilha terá fazendas e rodeos, outra terá fazendas, favelas e baile funk, a seguinte fazendas e churrascos brai, e a ilha povoada de Angolanos? Provavelmente algo parecido com o Cazenga. Sendo que os falhanços e sucessos de um povo são frutos também de sua cultura e da soma das ações individuais de seus membros, porem muitas vezes, e em vários países, coloca-se o governo como agente social único porque assim podemos botar a culpa em terceiros e evitar uma pergunta inconveniente: O que EU estou individualmente a fazer melhorar ou piorar a minha vida? a vida de meus filhos, meus netos ou as pessoas a minha volta ?

Por exemplo, os pais dos 140 mil novos alunos [8] que ingressaram no ensino em Luanda em 2019 pensaram, antes de os conceber, como que iriam poupar recursos para poder construir as novas salas de aulas e formar os professores necessários?

Não se trata aqui de desculpar o governo pelas suas falhas, mais de notar que Angola tem 3 problemas em paralelo:


O foco sobre a corrupção, e o dinheiro supostamente roubado pelos dirigentes do MPLA, nos permitiria resolver apenas o primeiro problema, e os outros dois problemas são encobertos com a palavra “fatores sociais” para retirar a culpa individual e voltar ao porto seguro da Culpa Estatal.

O furor com que muitos reagiram quando o Presidente João Lourenço rejeitaou a relação da criminalidade com situação social ao dizer que “ser pobre ou desempregado se é, a partida, um potencial criminoso, um potencial assassino” não se deveu a uma certeza material de que estejam certos, ninguém apresentou um estudo sociológico dos criminosos de Angola para desmentir o presidente, ate porque estudos feitos em outros países apontam que a relação não seria direta[10], mais em parte por que muitos partilham do mesmo dogma: sendo o governo o único agente social, tudo que acontece tem de ser culpa do governo. E assim se escapa de se perguntar se os Angolanos, você, eu, e nossos antepassados, não criaram uma crise moral, espiritual e educacional que esta a gerar tantos assassinos sanguinários?

Vamos fazer uma segunda pergunta: porque que a “educação é um instrumento indispensável para o desenvolvimento do país”?

Permite criar pessoas que possam reconhecer a realidade diante de si, imaginar soluções e posteriormente comparar as possíveis soluções para escolher a melhor. Não se trata apenas de educação formal ou de diplomas, trata-se de uma cultura e um modo de viver.

Mais grave do uso irracional das receitas petrolíferas, foi a incapacidade da nossa sociedade de criar, em número suficiente, pessoas tem a capacidade de reconhecer a realidade e de resolver problemas, ou seja, um capital intelectual, e que os cúmplices para criar este cenário, por ação ou inação, não seriam apenas os Camaradas.

Aproveitando o momento para recomendar a todos a leitura de Ruy Afonso Costa Nunes “História da Educação”, como ponto de partida procurar uma solução.

 

http://jornaldeangola.sapo.ao/politica/unita_promove_debate_sobre_educacao
https://www.afriforum.co.za/en/judgment-reserved-in-afriforums-appeal-case-on-afrikaans-at-unisa/
https://search67.com/2019/09/17/construction-on-new-r300-million-afrikaans-university-in-centurion-begins/
https://www.fin24.com/BizNews/AfriForums-Ian-Cameron-Afrikaans-University-built-to-protect-culture-20151020
https://vanguarda.co.ao/sociedade/educacao/um-aluno-em-angola-estuda-8-mas-so-aprende-o-equivalente-a-3-anos-AJ784471?fbclid=IwAR2MLegws17Pr4GYHxG9uPGUH1Aqgnd3_8lKxDzs9TgrFVEpSsk5W6QCrj8
https://angolanoticias.blogspot.com/2013/03/a-fortuna-de-savimbi.html
https://www.makaangola.org/2017/06/a-unita-e-o-futuro-uma-reflexao/
https://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/educacao/2019/0/2/Luanda-alarga-numero-alunos-sistema-ensino,4212005c-3edb-44b7-b1f3-b06883f3e5c2.html
http://www.angop.ao/angola/pt_pt/noticias/politica/2019/10/48/Lider-MPLA-rejeita-relacao-criminalidade-com-situacao-social,9e22117d-73c8-461e-a338-dafbe92e0d4c.html
http://www.thefiscaltimes.com/Articles/2014/08/31/Questioning-Connection-Between-Poverty-and-Crime

 



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