Luanda - Ao Observador, o jornalista angolano recusa que haja uma rotura no MPLA e garante que ninguém é verdadeiramente leal a José Eduardo dos Santos, "o padrinho da corrupção".

Fonte: Observador

Rafael Marques não sabe se Isabel dos Santos volta a Angola se for formalmente acusada pela justiça, mas tem a certeza de que já está em curso o julgamento público do pai, José Eduardo dos Santos, “o padrinho da corrupção em Angola”. Nos tribunais “tudo é possível”, mas, nas lutas por poder, o antigo presidente e a família ainda têm uma vantagem: “Tem a força da ignorância do povo que não educou”.

 

Com a justiça angolana a implicar diretamente o antigo presidente em negócios lesivos para o Estado, com o favorecimento ilícito a Isabel dos Santos vertido na decisão do Tribunal Provincial de Luanda, com outro filho de José Eduardo dos Santos a ser julgado, Rafael Marques deixa uma certeza: “Não me sinto vingado. Aliás, quando, amanhã, Isabel dos Santos sentir que os seus direitos humanos estão a ser violados, eventualmente também acabará por vir ter comigo. Eu defendo os direitos de todos os cidadãos sem exclusão, incluindo os dela”.


Nunca fugiu de julgamentos, garante, e para Isabel dos Santos tem o mesmo desafio — “Ela que venha a Angola” — e um aviso: “Não adianta dizer que isto é um problema do Rafael. Quem sou eu? Um simples cidadão que investiga e defende os direitos dos cidadãos”.


O MPLA não está a romper com a família dos Santos, garante Rafael Marques ao Observador. O que há é a separação do Estado e do partido: “É um corte claro e inequívoco com os anos de impunidade de institucionalização da corrupção. Esse é o maior sinal de que esse período acabou e que agora ninguém está acima da lei”. Até aqui, “julgavam que com o dinheiro todo que tinham podiam fazer o que bem entendiam”.

 

Abriram-se várias investigações em Portugal contra dirigentes em angolanos, mas em relação a Isabel dos Santos havia uma certa proteção. Agora começa a haver uma linha clara de que não haverá mais figuras protegidas.


Mas o processo, admite o jornalista, se for levantado, tem de ser à prova de bala: “O que se pede é que a Procuradoria-Geral da República e a magistratura sejam mais profissionais, mais respeitadores da lei, para que estes processos sejam sempre de acordo com a lei”, permitindo acabar com a cultura de “pensar que o país está a saque para aqueles que estão no MPLA” e demonstrando que a chegada de João Lourenço ao poder não foi “apenas uma substituição de antigos ladrões por novos ladrões”.

 

No partido do poder em Angola, Rafael Marques vê pouca esperança para José Eduardo dos Santos, que liderou o MPLA até 2018: “Não há uma facão pró-dos Santos. Não há uma fação pró-Lourenço. Há é muitos indivíduos no MPLA que continuam a pensar que têm mandato para pilhar o país, que não querem perder os seus benefícios, que não querem acabar na cadeia”.


“Esses procuram a todo o custo utilizar o poder atual, quer pela via da chantagem, quer pela via da sabotagem, para manterem tudo na mesma”, projeta Rafael Marques, repetindo: “Não há duas facões, porque o regime do Eduardo dos Santos era insustentável e esses indivíduos sabem disso muito bem”. A prova? “Hoje, nenhum deputado ou dirigente desta suposta facão vem a público, por exemplo, defender Isabel dos Santos“.


Há uma vantagem para a defesa do status quo, sustenta o jornalista: “Este grupo tem a força da ignorância do povo que não educou. Tem a força dos inválidos, dos doentes, por ter roubado a saúde deste povo. É a força que estes indivíduos têm”. Mas, “hoje a sociedade está claramente desperta e sabe perfeitamente que não se pode deixar cair na manipulação de indivíduos que sempre fizeram mal ao país e sempre fizeram mal aos angolanos através dos cargos que exerceram, negando a este povo o direito básico à saúde, educação, a bens essenciais”.


A lealdade que se conquista através da corrupção não é uma lealdade. É um negócio, é uma compra. E esse tipo de indivíduos não são fiáveis. Nem para José Eduardo dos Santos nem para ninguém.


“Não se compreende como é que, hoje, haja pessoas no MPLA com bom senso, que possam dizer que os anos de José Eduardo eram bons, exceto pela corrupção”, diz, e é por essa governação, que considera indefensável, que “vai ser interessante saber qual será a defesa” de Isabel dos Santos.

 

Isabel dos Santos não vai a Angola desde 2018 “porque não quer”, afirma o jornalista, “porque tem medo do que fez”, reforça. Mas se for acusada formalmente “pode mostrar o seu patriotismo, a sua coragem, o seu amor por Angola e dizer ‘Eu vou lá junto dos meus irmãos e vou lutar pelos meus direitos na minha terra’. É assim que pode ser patriota”.


Já o pai, não está preocupado com um julgamento, garante Rafael Marques. Não porque seja impossível ser responsabilizado judicialmente — a imunidade presidencial pode ser levantada pela Assembleia Nacional e há juristas que defendem que esta nem abrange o abuso do cargo público –, mas porque há outra coisa a prender-lhe a atenção: “Não há nada mais devastador para José Eduardo dos Santos do que ver os seus filhos nesta situação. E foi ele quem os levou a essa situação. De modo que ser julgado, ou não, passa a ser agora para ele de menor relevância, porque nem consegue defender os filhos”.


A única forma que tinha de defender os filhos era ter exercido o poder de forma democrática. E ter dado aos filhos uma melhor educação, que não a de açambarcar aquilo que pertence a todos os angolanos. Esta é a pior condenação para o tipo de prepotência dos filhos de José Eduardo dos Santos e a forma como ele entregou os negócios aos seus filhos. Foi ele quem condenou os seus filhos e a si próprio, pelos seus próprios atos, pelo seu comportamento.


“O final ideal deste processo é o Estado reaver aquilo que é seu de direito”, vaticina o jornalista, admitindo que “Não é possível recuperar as vidas de milhares de angolanos que se perderam por causa da corrupção, do saque do país”, mas defendo que “é possível restaurar a dignidade das gerações atuais e das vindouras”.



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