Até há bem pouco tempo, o dólar era a moeda preferida, subalternizando o kwanza das mais pequenas mercearias aos grandes supermercados, restaurantes, bares e lojas dos diferentes tipos de comércio. Nos últimos dias, inscrições como “Valorize a moeda nacional. Pague em kwanzas” ou “Não aceitamos dólares” começaram a surgir junto às caixas registadoras de mercearias, bares e restaurantes de Luanda.

A este cenário não é alheia a forte valorização do kwanza face ao dólar que, como explicou o ministro das Finanças, José Pedro de Morais, em declarações públicas, atingiu os 50 por cento nos seis anos que passaram desde o fim da guerra em Angola, em 2002.

José Pedro de Morais lembrou ainda que até 2002, a moeda nacional tinha uma desvalorização constante face ao dólar e que esse cenário se alterou nos seis anos que passaram deste à assinatura dos acordos de paz, sendo o kwanza hoje uma moeda “completamente estável”. O forte crescimento económico angolano, um dos mais elevados do mundo, sustentado pelo crescente aumento do preço do petróleo nos mercados internacionais, sendo Angola o segundo maior produtor africano, é uma das razões para a valorização e estabilização do kwanza. Mas esta nova realidade tem também uma dimensão política e social.

O economista Justino Pinto de Andrade sublinhou a “dimensão simbólica” da moeda de Angola, que ao ganhar relevo na economia nacional dá “outra dimensão à ideia de soberania”, conceito que passa “também pela soberania económica”. “Mas, é ainda importante ter-se em conta que é igualmente do interesse dos cidadãos poderem efectuar os seus pagamentos sem perdas. Se as pessoas recebem ordenados em kwanzas só têm a ganhar se puderem pagar nessa mesma moeda”, disse Pinto de Andrade.

Segundo Justino Pinto de Andrade, a “volatilidade do dólar” levou a uma “fuga”, mesmo a uma “hostilização” da moeda norte-americana, porque a estabilização do kwanza permite às pessoas adquirirem qualquer moeda, incluindo o euro, quando viajam, levando também isso a uma “perda da importância do dólar”. Mas, também se nota, adianta Justino Pinto de Andrade, que os cidadãos percebem que a utilização crescente do kwanza e a “contracção da importância social” do dólar enquanto moeda franca em Angola está “directamente ligada à independência do país” sendo essa troca vista como um “contributo para a sua soberania”. Esta realidade afecta ainda os tradicionais esquemas ligados ao câmbio em Luanda e no resto do país. As chamadas “quínguilas“, normalmente mulheres que trocam dinheiro na rua, como explicou uma destas cambistas, estão “um bocado cansadas” do dólar e procuram “sempre mais” o euro.

“Nos últimos tempos, são cada vez mais as pessoas que querem trocar dólares por kwanzas. O normal era as pessoas chegarem com kwanzas à procura de dólares”, disse esta quínguila, que tem o seu posto de trabalho no bairro Maculusso, em Luanda.


Fonte: JA  



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