Luanda - Há 18 anos, exactamente à esta hora, mandei o Brigadeiro Kalulu organizar uma formatura geral. Estávamos algures entre os rios Luzi e Lukonya.

Fonte: Club-k.net

Antes porém, ditei uma curta mensagem, em nome dos dirigentes e tropa que se encontravam comigo, no sentido de apoio incondicional ao Vice-presidente António S. Dembo. O Eng. Blanche encarregou-se de a redigir e enviar a msg para a o sector das comunicações. O Brigadeiro Xanja era o chefe das nossas comunicações.

A formatura deste dia tinha um único objectivo:


Informar aos mais de 350 homens da nossa coluna, sobre o ocorrido na véspera.
É que apenas eu, o Secretário Geral, tinha ainda um rádio receptor. Eu é que ouvi, às 20h00, de dia 22 a notícia do trágico acontecimento. Reuni de imediato apenas os dirigentes políticos mais o próprio Comandante da minha coluna, o Brigadeiro Kalulu.
Decidimos fazer a comunicação aos soldados apenas no dia seguinte.

Foi uma missão difícil.

Meu General a formatura está pronta! Anunciou o comandante Kalulu. Reuni a coragem possível e sem detalhes, porque não os tinha, informei sobre o essencial. Dei também a conhecer ao pessoal que tinha enviado em nome de todos uma msg de apoio ao senhor vice-presidente Dembo.

A minha comunicação caiu que nem uma bomba.

No fim eu disse: Caros camaradas! Haja coragem, força e serenidade para que tenhamos a necessária lucidez que nos permitirá, das trevas encontrarmos um caminho.


Perdemos o líder mas o seu projecto continua válido. Temos por isso uma causa a defender.
Temos povo que nos apoiará e temos o Vice-presidente Dembo para continuarmos a nossa marcha. Longe de sabermos que o Vice-presidente já nessa altura estava agonizante algures também no Leste do país.

Soubemos pela Voz da America, 4 dias depois, que o Vice-presidente Dembo tinha igualmente falecido.

Convoquei novamente para uma reunião de emergência, já dentro da profunda crise, os dirigentes, nomeadamente camaradas Dachala, Sakala, Vituzi Lumai, Blanche, Kalulu, Xanja e o Ten. Coronel Mbala. Na agenda, um ponto único: "Análise da situação da UNITA à luz dos últimos acontecimentos (mortes de PF e do seu Vice)."

O camarada Dachala, no seu estilo muito peculiar concluiu: "Na lógica da guerra, agora o alvo a abater é mesmo você, o Secretário Geral. A nossa estratégia nestas condições deve ter em conta a sua protecção. Temos ainda uma coluna importante com homens e algum material, enquanto pensávamos na estratégia a médio e longo termos."


Tomamos então a decisão de nos isolarmos para melhor reflexão. Fomos para a profundidade da densa floresta do Moxico, (vo ndundago).


Com certeza estivemos onde nunca um ser humano poderia ter estado. Longe dos rios e das lavras. Nessas áreas o chão está coberto de um espesso tape de musgo num belo tom verde que lembrava os melhores tapetes persas. O velho maquisard, General Vituzi garante: "aqui podemos estar à vontade. Esse musgo contem água que até banho podemos tomar."

De facto havia água que mesmo sendo esverdeada, podia ser considerada, fervida ou não, de facto H2O. Debaixo desse mesmo musgo podemos ainda cavar e encontrar o nosso "gisombe" em umbundu, olongegu, bastante nutritivos. Nessa área calma e tranquila, em que nem os raios solares penetravam com facilidade, reflectimos, analisamos e tomamos as nossas decisões. Tudo o que se seguiu foi resultado do que no Ndundago foi decidido.

Honra e glória aos nossos maiores.

Enquanto isso e 18 anos depois a luta apenas mudou de forma mas ela continua acesa...

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