Luanda - Os cientistas já não se aventuram a afirmar com segurança que o seu parto teve no lugar na China, mesmo se os políticos e os jornalistas não se revêem, nesse tipo de declarações. O Sars-Cov2, mais conhecido pelo nome de COVID-19 já atingiu níveis bastantes assustadores pelo que, o que importa hoje não é saber onde e quando ele nasceu, mas de determinar como desacelerá-lo ou bloqueá-lo. Mas para que o novo coronavírus, que na China apareceu oficialmente no fim do ano 2019, tenha conseguido infectar em menos de oito meses 11.500.000 pessoas, matar mais de 530.000, e um número assustador de outras vítimas infectadas mas não identificadas, seguramente, é porque teve a missão facilitada pelas circunstâncias.

Fonte: Club-k.net

Para lá da falta de conhecimento do mal desde o seu aparecimento, da impreparação dos Estados à esse tipo de fenómeno, da insuficiência de meios de resposta, da despreocupação e do desafio das populações, uma das vias confortáveis da transformação da epidemia à pandemia é a GLOBALIZAÇÃO. Também conhecida pelo nome de MUNDIALIZAÇÃO, o termo indica em palavras simples, a abertura das economias nacionais no mercado mundial provocando deste modo a interdependência crescente entre países. Consequência evidente desta livre circulação, o COVID-19 é o principal factor das restrições que vivemos desde Março de 2020 em Angola e no mundo.

 

DA EPIDEMIA A PANDEMIA: A RESPONSABILIDADE DA GLOBALIZAÇÃO

 

O COVID-19 não é filho directo da mundialização. Se o mal estivesse circunscrito apenas na China onde foi formalmente identificado, se ele permanecesse no estado de epidemia, a sua filiação com as trocas comerciais internacionais não seria estabelecida. A epidemia tornou-se rapidamente numa pandemia sob o olhar impávido da Organização Mundial da Saúde (OMS), ultrapassada pelos acontecimentos. Todos os países; ricos e pobres, desenvolvidos e subdesenvolvidos, nenhum deles ficou impune. Fiel a sua posição de primeira potência mundial, os Estados Unidos de América pontificam a lista dos países mais infectados do planeta com cerca de 3.000.000 de casos diagnosticados.

 

O Sars-Cov2 deve a sua velocidade de propagação não só ao seu caracter virulento do ponto de vista sanitário, mas também ao sistema de organização das trocas internacionais. A liberdade de movimento que a globalização propiciou, permitiu que em poucos dias o vírus viajasse de Wuan à Nova Iorque, de Turin (cidade Italiana) à São Paulo, de Paris à Dakar, de Londres à Johannesburg, etc pelos portadores do vírus não detectados, mas provavelmente também pelas mercadorias contaminadas, bagagens e objectos diversos. Razão pela qual, vários Estados tomaram a decisão de fechar as suas fronteiras terrestres e aéreas, quando as contaminações e óbitos se intensificaram.

 

A CHEGADA DA PANDEMIA: A GLOBALIZAÇÃO EM PERIGO

 

Apesar de avisos isolados mas bem disseminados por determinados cientistas, o mundo estava globalmente mal preparado ao surgimento de uma pandemia desse género. Na luta generalizada que caracteriza a busca desmedida dos benefícios que a mundialização oferece à uns, na corrida à sobrevivência quotidiana que a pobreza crescente impõe à outros, muito poucos eram os Estados, Governos e cidadãos que se preocupavam com a conduta à seguir, caso um perigo mundial ocorresse. Agora ele existe, entupe as narinas, congestiona os pulmões, provoca deficiência imunitária e no caso mais grave, mata.

 

Uma das principais respostas dos Estados ao Covid-19, é o confinamento. Confinamento exterior através do encerramento das fronteiras, confinamento interior através da cerca sanitária às cidades, regiões, etc. A livre circulação de pessoas e bens que a globalização nos proporcionava é assim sacrificada, em nome da segurança sanitária. Tudo que faz a força e o sucesso da mundialização foi abalado. O sistema, obviamente, não está abandonado nem o será, visto que nada foi previsto a curto ou longo prazo para substitui-lo. Mas como se diz em vários países do mundo, “o dia de amanha não pode ser semelhante ao dia de hoje”.

 

O IMPACTO ECONOMICO DA PANDEMIA EM AFRICA

 

Os países desenvolvidos mobilizaram avultadas somas em dinheiro para relançar as suas economias respectivas. Para determinados países africanos, essas somas nem podem ser convertidas em moedas locais. Se para os países ricos e desenvolvidos foi preciso mobilizar montantes colossais, para fazerem face a crise económica que o Covid-19 encerra, o continente africano precisa também de investimentos consequentes e sustentáveis. Todos os sectores das economias africanas em geral, encontram-se sinistradas. A saúde está em primeiro lugar, obviamente, na resposta contra essa pandemia mas despida de meios elementares. A economia, como era de esperar, ficou mais fragilizada e sobrevivendo das receitas precárias da venda das matérias-primas agrícolas, mineiras, petrolíferas, vê a sua sorte mal engajada.

 

Os países exportadores do petróleo bruto estão duramente abalados. O comércio internacional, desnorteado. Determinados preços disparam e outros desabam. O turismo é esmagado. A actividade industrial foi tão afectada de tal maneira que no passado mês de Abril, o preço do barril de petróleo tornou-se negativo no mercado. Os países produtores de petróleo (como o nosso por exemplo), não escaparam ao castigo. Em todos os países do mundo, particularmente em Africa, o emprego conheceu um desmoronamento brutal e muitos países vivem em recessão (regressão da actividade económica).

 

A AFRICA RESISTENTE OU RESILIENTE

 

Em Fevereiro de 2020, grandes preocupações agitaram os observadores, quando os primeiros casos do coronavírus foram oficialmente detectados no nosso continente. Algumas semanas mais tarde, o anúncio alarmista de Tédros Ghebreyesus, Director Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), que pedia desesperadamente aos países africanos para se prepararem à uma catástrofe sanitária de grande escala, veio reforçar o temor. É verdade que, os países europeus com a reputação de terem um bom sistema de saúde, pagam um tributo mais elevado ao Covid-19 em relação aos países africanos, frágeis e incapazes de garantir uma segurança sanitária aos seus cidadãos. Seis meses depois, verifica-se que apesar do surgimento de novos casos, o continente africano continua resistindo face ao Sars-Cov2.

 

Concentrando 17 à 18% da população mundial, a Africa registou menos de 5% de casos de contaminação no inicio do mês de Julho ou seja 480.000 casos nos mais de 11.000.000 detectados no plano internacional, segundo o boletim quotidiano publicado pelo Centro Africano de Controlo e Prevenção de Doenças (Africa CDC), em Adis Abeba. Será que já podemos considerar estas estatísticas como uma pena suspensa? Ou elas escondem uma realidade camuflada pela insuficiência de testes de despistagem realizadas em Africa? Se os óbitos massivos registados na europa e nos Estados Unidos de América, por exemplo, fossem semelhantes aos registados em Africa, na presença de testes, saber-se-ia o real estado epidemiológico, ou seja, os níveis de propagação.

 

A Africa resiste, ela resiste melhor do que outros continentes mesmo se esta resistência não impede o avanço da pandemia. Os especialistas em epidemiologia poderão explicar o porquê mas de momento a constatação está feita.

 

No plano económico, a constatação é diferente. A resiliência esperada não se faz presente. Na realidade, enquanto a contaminação não conhecer uma queda considerável, será impossível de fazer uma avaliação precisa sobre as consequências dessa pandemia na económica do nosso continente. Enquanto isso, as preocupações são numerosas e legítimas.

 

Como noutros continentes, ao debate sobre a fragilidade do sistema de saúde devido ao coronavírus, junta-se, o da mundialização. A principal resposta dos Estados é o regresso à soberania, nos domínios da produção industrial, da gestão de fronteiras, da economia, etc. Mas felizmente, como em todos os desafios aos quais o mundo tem de fazer face, a solidariedade internacional se esboça. Trata-se de uma solidariedade que leva até os Estados confrontados com as mesmas dificuldades, a ajudarem os outros. Contrariamente à imitação que caracterizou as disposições tomadas contra essa pandemia, por determinados Estados, a Africa tem de tomar também medidas indígenas que terão em conta a relação entre a doença e a sua realidade. Esta é a verdadeira condição da resiliência.

 



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